Veja porque Conchal e Artur Nogueira são cidades gêmeas

Por Geso Franco de Oliveira*

Há muito mais coisas ligando os dois municípios do que a linha férrea que um dia já cumpriu este papel. Vejam coincidências de fatos e acontecimentos entre as cidades gêmeas, embora Conchal tenha nascido em 9 de abril de 1949 e Artur Nogueira no dia 10 de abril do mesmo ano.

A política de colonização, efetivada pelo governo paulista a partir do advento da República (1889), teve como norte a fundação de Núcleos Coloniais, que foram os elementos responsáveis pela transformação da nossa região. A intenção do governo estadual era transformar essa região num verdadeiro celeiro agrícola do interior paulista. Foram criados os Núcleos Coloniais: Campos Salles, Visconde de Indaiatuba e Conde de Parnaíba.

Artur Nogueira

Na região do funil, que compreendia as fazendas Três Barras, Boa Vista e São Bento, com vasta extensão de terra, cerca de 3.000 alqueires, o núcleo veio a chamar-se “Campos Salles” (1897), em homenagem a seu criador.

Conchal

Na região onde se formavam no passado três grandes fazendas denominadas: “Nova Zelândia”, “Ferraz” e “Leme”, pelo Decreto nº 2.020 de 28 de março de 1911, as referidas terras foram divididas em dois Núcleos Coloniais distintos que receberam a denominação de: “Visconde de Indaiatuba” e “Conde de Parnaíba”.

Esses Núcleos Coloniais foram favorecidos com a construção da Estrada de Ferro “Funilense”, com o objetivo de ligá-los à cidade de Campinas.

Artur Nogueira

“Estação Arthur Nogueira” foi inaugurada em 21 de junho de 1906 e seu primeiro chefe foi o Sr. Horácio Ramos da Cunha e a primeira professora pública foi sua esposa a Sra. Ana Ramos da Cunha.

Conchal

“Estação Conchal” foi inaugurada em 20 de novembro de 1913 e seu primeiro chefe foi o Sr. Josefino Nabão. A primeira professora pública foi a Sra. Adelaide de Barros.

Districto de Paz

Artur Nogueira

Tornou-se Districto de Paz do município de Mogi Mirim através da Lei nº 1.542 de 30 de dezembro de 1916.

Conchal

Os dois Núcleos Coloniais foram emancipados passando a constituir um Districto de Paz do município de Mogi Mirim através da Lei nº 1.725 de 20 de dezembro de 1919. Na época distrito de “Paz de Engenheiro Coelho”, mudando depois para “Conchal”.

A Luz Elétrica chegou a Conchal em 1923 e em Artur Nogueira somente em 1936

As Famílias tradicionais das duas cidades são constituídas de descendentes de imigrantes europeus, em sua maioria italianos, alemães, portugueses e espanhóis como:

Conchal:

Andrade, Abib, Alonso, Oliveira, Leitão, Battel, Macota, Baraldi, Doring, Brucieri, Boró, Corrêa, Moreira, Corte, Fadel, Campos, Ferreira de Melo, Filipini, Fisher, Kammer, Maiochi, Mano, Melo, Metzker, Paulo, Peris, Pianca, Pulz, Rossi, Tetzner, Barros, Camargo, Ferreira, entre outras.

Artur Nogueira:

Adorno, Amaro Rodrigues, Arrivabene, Berni, Bôer, Carlini, Carlstron, Cruz Andrade, Cunha Claro, Duzzi, Fáveri, Ferreira de Camargo, Guidotti, Margonari, Pulz, Rossetti, Sá, Sia, Tagliari, Vicensotti, entre outras.

Emancipação Político-Administrativa

Conchal

No ano de 1944, uma luta desuniu profundamente os conchalenses, separando-os em duas facções fortes, irreconciliáveis e com reflexos maléficos em toda a vida local.

Uma parte do povo, sentindo-se tolhido em seus anseios de progresso, no justo ideal de encontrar dias melhores, entendeu separar-se de Mogi Mirim e passar a pertencer ao município de Araras que poderia abrir melhores dias para o distrito, tendo em vista o completo abandono e descaso, com que era tratado pelo município.

O povo dividiu-se entre araraenses e mogianos e durante vários meses a população local sofreu as terríveis consequências de uma luta sem precedentes.

Criou-se assim, um ambiente hostil, com ódios e ressentimentos, até que o caso foi resolvido a favor de Mogi Mirim.

No dia 5 de abril de 1948, as lideranças nascidas dos grupos se reuniram no Cinema Paratodos assumindo um compromisso pela emancipação.

Foi, então, criada a Comissão Pró-Município formada pelos senhores: Francisco Magnusson, Egydio Corte e José Galves Guerra que iniciaram o movimento para elevação a município, cuja atribuição seria a de mobilizar os eleitores e providenciar o andamento do processo de emancipação, segundo exigia a lei.

Artur Nogueira

No início de 1948, começaram os trabalhos para a emancipação do distrito. Formou-se uma comissão pró-emancipação encabeçada pelo tabelião local, Sr. Raul Grosso. Essa comissão era composta por 11 membros: Rodolfo e Humberto Rossetti, Reinaldo G. Stein, Severino Tagliari, Atílio Arrivabene, José Amaro Rodrigues Filho, Santiago Calvo, Elísio Quinteiro, Roberto Amaral Green, Jacob Stein, tendo como presidente Raul Grosso.

Finalmente, depois de grandes trabalhos das comissões de Conchal e Artur Nogueira, a Assembleia Legislativa determinou a realização do Plebiscito de consulta ao povo das duas cidades, para que este se pronunciasse “PRÓ” ou “CONTRA” a criação dos municípios.

Após o alistamento eleitoral onde todos os habitantes maiores de dezoito anos poderiam votar foi marcado o Plebiscito para o dia 24 de outubro de 1948, que teve os seguintes resultados:

Conchal:

Pró-Município = 627 Votos – Contrários = 27 Votos

Artur Nogueira:

Pró-Município = 721 Votos – Contrários = 24 Votos

No dia 24 de dezembro de 1948, a lei nº 233 da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo elevou Artur Nogueira e Conchal a municípios.Após a aprovação da emancipação, foram convocadas eleições municipais para eleger o primeiro prefeito e vereadores, eleições a serem realizadas em 13 de março de 1949.

Conchal

Em Conchal foi eleito o Sr. Francisco Magnusson, que tomou posse em 9 de abril de 1949, juntamente com os 13 primeiros vereadores: Alfonso Moretti, Anselmo Zani, Argemiro Corte, Armando Battel, Boanerges Andrade, Gregório Jose Bechara, Jose Alves Guerra, João Migiato, Luís Ângelo Bronzatto, Octavio João Breda, Pedro Biazotto, Alberto Paulo e Honor Bueno de Moraes.

Artur Nogueira

Foi eleito o Sr. Severino Tagliari, que tomou posse em 10 de abril de 1949, juntamente com os 13 primeiros vereadores: Raul Grosso, Rodolfo Rossetti, Jacob Stein, Arthur Vicente Caetano, Agostinho Berni, Arthur Gazzoto, Benedito Pinto Barbosa, Adolpho Nintz, Luciano Antônio Carmona, Luiz Guidotti, Jose Bervinde, Jose Gazotto Sobrinho e Marcilio Cons.

ADMINISTRAÇÕES PUBLICAS – Conchal

  • 1º Francisco Magnusson 1949/1953
  • 2º Anselmo Zani 1953/1957
  • 3º José Ferreira de Melo 1957/1961
  • 4º Anselmo Zani 1961/1965
  • 5º Nelson Gomens Esteves da Cunha 1965/1969
  • 6° Egydio Corte 1969/1973
  • 7º Salvador Leitão 1973/1977
  • 8º Bento Laerte Ferreira de Melo 1977/1983
  • 9º Egydio Corte 1983/1988
  • 10º Wilson Lozano 1989/1992
  • 11º Santo Waldemar Ferreira de Melo 1993/1996
  • 12º Bento Laerte Ferreira de Melo 1997/2000
  • 13º Valdeci Aparecido Lourenço 2001/2004
  • 14º Valdeci Aparecido Lourenço 2005/2008
  • 15º Orlando Caleffi Junior 2009/2012
  • 16º Valdeci Aparecido Lourenço 2013/2016
  • 17º Luiz Vanderlei Magnusson (atual)

ADMINISTRAÇÕES PUBLICAS – Artur Nogueira

  • 01ª – 1949/1953– Severino Tagliari
  • 02ª – 1953/1957– José Amaro Rodrigues
  • 03ª – 1957/1961– Severino Tagliari
  • 04ª – 1961/1965 – Jacob Stein.
  • 05ª – 1965/1969– Luiz Spadaro Cropanise
  • 06ª – 1969/1973– Jacob Stein
  • 07ª – 1973/1977– Atílio Arrivabene Jr
  • 08ª – 1977/1983– Rubens Silva Barros
  • 09ª – 1983/1988– Cláudio A.de Menezes
  • 10ª – 1989/1992– Ederaldo Rossetti
  • 11ª – 1993/1996– Cláudio A.Menezes
  • 12ª – 1997/2000 – Nelson Stein
  • 13ª – 2001/2004 – Luís de Faveri
  • 14ª – 2005/2008 – Marcelo Capelini
  • 15ª – 2009/2012 – Marcelo Capelini
  • 16ª – 2013/2016 – Celso Capatto
  • 17ª – 2017/2020 – Ivan Vicenssotti (atual)

Cognomes:

Conchal – “Morada dos Rios”

Devido aos diversos rios, riachos e nascentes, existentes em sua geografia, o município de Conchal é conhecido como “A morada dos rios“.

Artur Nogueira – “Berço da Amizade”.

Em 1970 o então Prefeito de Artur Nogueira Sr. Jacob Stein observou que muitas cidades eram denominadas por um cognome, relacionado costumeiramente a coisas e fatos ligados a vida da cidade e do município, então criou um concurso público para a escolha oficial e definitiva de um cognome para o município. A população recebeu com entusiasmo e logo correu às urnas e referendou a iniciativa da prefeitura. Através do Decreto Nº 3 de 20 de fevereiro de 1970 homologou-se o resultado final do concurso popular, ficando adotado oficialmente o cognome de “Berço da Amizade” para o município de Artur Nogueira. O autor do cognome Berço da Amizade foi o jovem Arnaldo Malagó, a quem o executivo municipal premiou em ocasião especial.

Egydio Corte e Cesária Antonina Silva Corte / Irene Malagó Stein e Jacob Stein (1971)

Em 1960, com a supressão dos ramais ferroviários rompe-se a primeira ligação entre as cidades irmãs.

“O Último Trem”

O então Governador de São Paulo, Carvalho Pinto, através do DECRETO Nº 36.021, de 22 de dezembro de 1959, decretao fim das ferrovias, dando lugar ao transporte rodoviário.

“Autoriza a supressão dos ramais férreos, Linha Funilense, pertencentes à Estrada de Ferro Sorocabana e dá outras providências.

Artigo 1.º- Fica a Estrada de Ferro Sorocabana autorizada a suprimir, trinta dias após a publicação do presente decreto, a Linha Funilense, com noventa e dois quilômetros e cento e cinquenta e nove metros. “

“O dia em que a população se revoltou”

Estação de Pádua Salles em Conchal, local fica à beira da margem esquerda do rio mogi-guaçu, bairro rural até hoje.

A Sorocabana havia avisado que no dia 27 de janeiro de 1960 iria começar a retirada dos trilhos, começando pelo seu terminal, só que a ferrovia não contava com um detalhe: o povo dali resolveu reagir, o serviço deveria começar às seis da manhã, porém, bastou nascer o sol e começou a chegar gente a pé e em caminhões que vinham de Artur Nogueira, Cosmópolis, Conchal, postando-se sobre a linha, alguns se amarraram aos trilhos, avisavam aos operários da Sorocabana para irem embora, os comerciantes de Artur Nogueira, Cosmópolis e Conchal cerraram as portas,  a cidade de Conchal parou. Para evitar distúrbios, o destacamento policial foi reforçado e comandado pelo delegado Cid Guimarães de Mogi Mirim. Os operários foram embora sem levar nada.

Uma semana depois, ou seja, em 3 de fevereiro de 1960, o trem partiu de Campinas, da estação do Bonfim, às 4:40 hrs da tarde, com destino a Pádua Salles. A ordem do governador Carvalho Pinto era para o trem correr todos os dias “em caráter provisório até que as cidades do ramal fossem providas de estradas de rodagem, que estariam sendo providenciadas. ”

O trem foi parando em todas as estações, a primeira em Barão Geraldo, uma multidão o esperava e aplaudia, depois a mesma coisa em Betel e Paulínia, onde até o prefeito esperava o trem na estação, em Artur Nogueira 150 pessoas esperavam o trem, em Engenheiro Coelho a população inteira do então pequeno bairro o aguardavam, chegou o trem a Conchal às 8:45 da noite, na praça houve discursos e manifestações.

Muitas das estações da linha foram demolidas, outras viraram ruínas ou tem outros usos, em Conchal está preservada, em nossa cidade foi demolida em 1978 e construída uma réplica em 2009, mas fica a lembrança de que naquele tempo a população já se levantava para defender seus patrimônios e interesses.

Religião

Conchal

Desde o começo de sua história, o povo tinha forte devoção a São Sebastião, o qual foi responsável pela ereção de uma pequena capela no mesmo local da atual matriz.

Com o tempo necessitou-se construir uma capela maior. Foi onde, após a construção, dedicou-se a Igreja ao Sagrado Coração de Jesus e em 26 de novembro de 1921 foi instituída Paróquia.

Artur Nogueira

O povo também muito devoto de São Sebastião, inaugurou e abençoou a Capela em homenagem ao santo em 1917. Em 1934 houve uma ampliação para se tornar Paróquia Nossa Senhora das Lágrimas e no ano seguinte Paróquia Nossa Senhora das Dores.

Líderes Espirituais:

MONSENHOR ALBERTO VELLONE

Monsenhor Alberto Vellone, nasceu em 02 de fevereiro de 1923. Em 07 de outubro de 1956 assumi a Paróquia do Sagrado Coração de Jesus em Conchal, onde permaneceu até 20 de novembro de 2001data de seu Falecimento.

*Permaneceu por 45 anos na mesma comunidade.

Em 10 de Junho de 1992, atendendo ao forte apelo da comunidade católica local e pelos méritos demonstrados ao longo de todo o seu Sacerdócio o então Padre Alberto Vellone, recebe o título de Honorífico Monsenhor, tornando-se “Monsenhor Alberto Vellone.”

No dia 23 de junho de 2017 na Festa do Padroeiro da Cidade SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS – Seu último desejo foi realizado; Em Cerimónia marcada pelos devotos e grande parte da população, foi realizado o Translado de seus restos Mortais.

Missa foi celebrada por Dom Vilson de Oliveira, juntamente com alguns Padres que passaram por esta paróquia para agradecer e ao final da Celebração em uma Crípita na Matriz do sagrado Coração de Jesus foi depositado seus restos Mortais para o descanso Eterno.

MONSENHOR EDISSON VIEIRA LÍCIO

Monsenhor Edisson Vieira Lício, nasceu em 1 de janeiro de 1915. Em meados de 1955 assumiu a Paroquia Nossa Senhora das Dores de Artur Nogueira. Faleceu em 14/09/1999 e foi sepultado no dia da Padroeira. Líder religioso esteve à frente da Paroquia por 42 anos, sempre teve muita influência na vida religiosa e na educação dos Nogueirenses, criou cursos como F.N.M. e E.C.C., idealizou o projeto do educandário (atual centro administrativo municipal).

Curiosidades:

Em 1921 o Presidente Washington Luís veio visitar Conchal e foi recebido com grande festa. Em 1928 o seu filho Caio Luís Pereira de Souza casou-se com Aracy Arens, filha de Fernando Arens Junior que projetou o município de Artur Nogueira.

Como vemos, desde suas formações há mais de 100 anos, Conchal e Artur Nogueira tem muito em comum uma com a outra e uma bela história para ser contada, foram 47 anos ligadas pelos trilhos da Sorocabana e 69 anos de Emancipação Política que fazem destes municípios: “A Morada dos Rios” e o “Berço da Amizade”.

(*) o autor é historiador e reside na cidade de Artur Nogueira.

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